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... que trago em mim...

a criança: é birrenta e infantil a mulher: é ciumenta e barraqueira o político: é extremista e guerrilheiro o santo: é profano e ...

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

wanderson - em memória

eu era assim:
cabelos loiros enpainados
olhos azuis de céu aberto
boca de coelho saltitante
ares de abelha pousando flores

agora sou assim:
brisa vagando cabeças
visão margarida nos lares

poesia alternativa

eu
sumindo entre as árvores
um leve e cândido aceno
de despedida do 6º andar

não se pode confundir as paisagens:
o misto de campo e metrópole
só existe nos nossos corações.

como consequência
da luta armada de caneta
- palavras presas na tipografia -
como consequência da luta armada de vozes
- palavras soltas nas cabeças -
a gritarem: "vivam as saídas!!!"

o agora

é que só te olho
com os olhos do presente
por isso
não vejo em ti
nada de diferente.
e...
aí fiquei com o olhar perdido
nos horizontes de minhas pálpedras...

mulher, mulher, mulher,
tenho de ti um pouco em mim
que me abranda nas duras penas
e briga comigo nas horas amenas.

quero ser o teu afeto
o teu afago na hora do sufoco
e te levar pra debaixo da cama
quando a chuva fizer relâmpago.
o relacionamento humano
é uma gangorra:
enquanto um sobe
outro desce
voa
ou estatela no chão.

domingo, 16 de agosto de 2009

ZÉ DO TREM - lembranças de Catalão

Quando o trem partia de Ouvidor, de dia ou adentrando a madrugada, frio ou calor, Catalão invariavelmente ouvia um "canto penado" que - muito mais que galhofante - era uma ponta de faca na consciência de cada catalano em suas "encucações".

Cada qual sentia naquele canto o alerta para que a sua mente escravizada em algum fato torturante do passado ou do presente despertasse os seus fantasmas.

Todos esperavam ansiosamente - nervosamente ou não - o horário do trem de ferro passar, depois de ribombar pela Boda-da Onça, Rua da Grota, Rua da Capoeira, Rua do Pio, Rua do São João, o canto:

"Ói o trem, o trem lenveeeeeeeeeeeeeeeeeeeemmmmmm!!!
Ói o treeeemmm lenveeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeemmmmmmmmmmmm!!!!..."

E assim procedia até ser ouvido o ronco da Diesel adentrando a rua da Boca da Onça e prosseguia com mais euforia quando ela apontava lá na curva da Benedita:

"Ói.. óiiiiiiiiiiiii oooooooo treeeeeeeeemmmmmlenveeeeeeeeeeeeeeemmmmmmm!!!
Óiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii00000000treeeeeeeeemmmmmmmlenveeeeeeeeeeeeeeeeemmmmm!!!
Ói o treeeemmm lenveeeeeeeeemmmmm!!!!"

O trem passava puxando a sua corrente de cargueiros - pois os vagões de passageiros foram cortados pro mode a barragem que trouxe o "mar" para Três Ranchos - e atrás de si ficava o silêncio estarrecedor com a presença do Zé do Trem muito feliz e realizado voltando rapidamente para o aconchego de sua casa.

no meio do silêncio continuava a ribombar na existência de cada um aquele canto de aviso:

"Ói o trem lenveeeeeeemmmmmmmmmmmmmmmm!!!!"

sábado, 15 de agosto de 2009

você terá tudo que quiser
vou sair de fininho
como sempre fiz:
sem deixar vestígios
da minha passagem
nem traumas da partida.

o amor não se impôem a ninguém
nem há paz nascida de guerras
feridas expostas
vidas estancadas
desejos frutrados
da depressão só poemas sentimentais

só há vida feliz
quendo cúmplices do destino.